Epidemia Persistente | Uíge e Malanje Registam Mais de 80% dos Doentes Internados por Cólera em Angola

A epidemia de cólera em Angola mantém-se ativa e alarmante, com o registo de 61 novos casos durante o último fim de semana de novembro, conforme o boletim informativo do Ministério da Saúde (MINSA). A doença, que é de transmissão hídrica e fecal-oral, continua a propagar-se rapidamente, concentrando a maior parte dos pacientes internados nas províncias do Uíge e Malanje. O surto, que já soma um total de 34.679 casos e 877 óbitos desde o seu início, é impulsionado principalmente pela falta de saneamento básico e pelo acesso deficiente a água potável em várias comunidades angolanas.

Foco de Preocupação: Uíge e Malanje

O relatório mais recente do MINSA indica que a propagação da cólera atingiu agora províncias que incluem o Uíge, Malanje, Huíla e Lunda Norte. Das 61 novas infeções notificadas no fim de semana, a maior parte resultou no aumento do número de pacientes sob cuidados médicos.

Distribuição dos Pacientes Internados

Atualmente, o país contabiliza 162 pacientes internados em Centros de Tratamento de Cólera (CTCs) e unidades hospitalares. A situação é particularmente crítica no norte e centro do país:

  • Uíge: 99 pacientes
  • Malanje: 30 pacientes
  • Huíla: 27 pacientes
  • Cuanza Norte e Lunda Norte: 2 pacientes em cada
  • Cunene e Luanda: 1 paciente em cada

O Uíge e Malanje representam, em conjunto, mais de 80% (129 de 162) do total de doentes internados, o que exige um reforço urgente das intervenções sanitárias e logísticas nessas regiões.

O Balanço Nacional da Epidemia

Desde o início do surto, Angola tem enfrentado números significativos, que espelham a severidade da crise de saúde pública:

  • Total de Casos Reportados: 34.679
  • Distribuição por Sexo: 54% dos casos registados são do sexo masculino (18.713), e 46% do sexo feminino (15.966).

A Elevada Taxa de Letalidade

O número de óbitos atingiu 877, com a maior parte (55%) a ocorrer em ambiente intra-hospitalar (485) e 45% (392) de forma extra-hospitalar. A faixa etária das vítimas varia entre os dois e os 85 anos. A taxa de letalidade (TL) implícita desta fase da epidemia (cerca de 2,53%) é considerada alta, superando o limiar de 1% estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como indicador de tratamento precoce e adequado.

Segundo relatórios anteriores da OMS, o país chegou a registar a mais elevada taxa de mortalidade global por cólera em março de 2025, destacando a urgência na melhoria da gestão clínica e na deteção precoce de casos na comunidade.

O Contexto da Recorrência Histórica

A cólera em Angola é um inimigo persistente, intrinsecamente ligado aos desafios de infraestrutura e condições de vida das populações.

Falhas Estruturais e Saneamento Básico

A principal causa da transmissão continua a ser a precariedade do saneamento básico. Em muitas comunidades, a população não tem acesso a casas de banho seguras e é forçada a recorrer a práticas de deposição de dejetos a céu aberto. Tal situação, combinada com a carência de água potável canalizada, cria o ambiente ideal para a contaminação hídrica, especialmente durante a época das chuvas, que aumenta o risco de propagação regional.

Organismos internacionais, como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), têm sublinhado que a falta de acesso à água limpa e segura é uma barreira constante no combate à doença.

“A doença está ligada diretamente ao saneamento básico e à higiene pessoal. Condições precárias de saneamento básico e consumo de água sem tratamento adequado são os principais fatores de risco,” aponta o portal RedisseAngola, do Ministério da Saúde.

Antecedentes dos Surtos

Angola tem um historial de grandes surtos. Após um período sem registos entre 1995 e 2000, o país enfrentou um surto massivo em 2011, com 2.284 casos e 181 óbitos. Mais recentemente, em 2016 e 2017, as províncias de Cabinda, Luanda e Zaire foram afetadas, com 252 casos e 11 mortes. A repetição cíclica destes surtos ressalta a necessidade de investimentos contínuos e estruturais, e não apenas de respostas emergenciais.

Resposta e Próximos Passos

O Governo angolano, através do Ministério da Saúde (MINSA), e parceiros internacionais como a OMS, UNICEF e Gavi, a Aliança de Vacinas (www.gavi.org), têm mantido uma resposta multissetorial focada na vigilância, gestão de casos e comunicação de risco.

As ações incluem a mobilização de Equipas de Resposta Rápida, a formação de profissionais de saúde, a distribuição de kits de tratamento e a ativação de campanhas de sensibilização nas comunidades e mercados, principalmente sobre a importância de:

  1. Beber e usar água tratada.
  2. Lavar as mãos corretamente com água e sabão.
  3. Manter a higiene alimentar.

Conclusão Jornalística

A situação da cólera em Angola, evidenciada pela crescente concentração de casos em Uíge e Malanje, reforça que a resposta imediata deve ser acompanhada de soluções de longo prazo para as questões estruturais de água, saneamento e higiene. Especialistas em saúde pública alertam que, enquanto a taxa de letalidade permanecer acima do padrão internacional, as autoridades devem priorizar a expansão da rede de Centros de Tratamento da Cólera e garantir o acesso ininterrupto a fluidos de reidratação oral e antibióticos. A superação da epidemia depende, em última instância, da capacidade do país de transformar a resposta emergencial em investimento sustentável na saúde pública e infraestrutura básica.


FAQ – Perguntas Frequentes sobre a Cólera

1. O que é a cólera? A cólera é uma doença diarreica aguda causada pela bactéria Vibrio cholerae, que geralmente se manifesta após a ingestão de água ou alimentos contaminados.

2. Como se transmite a cólera? A transmissão ocorre principalmente por via fecal-oral, através do consumo de água não tratada, alimentos crus ou mal cozidos contaminados, ou contacto com fezes de uma pessoa infetada.

3. Quais são os principais sintomas da cólera? O sintoma mais característico é a diarreia aquosa abundante, conhecida como “água de arroz”, que leva rapidamente à desidratação grave, vómitos e, se não tratada, à morte.

4. O que significa “taxa de letalidade acima de 1%”? Significa que mais de 1% das pessoas infetadas estão a morrer. Este valor é o limite máximo aceitável pela OMS. Taxas superiores indicam falhas no tratamento ou no acesso a cuidados de saúde atempados.

5. Qual é o tratamento de emergência para a cólera? O tratamento principal é a reposição imediata de líquidos perdidos, geralmente através da Solução de Reidratação Oral (SRO). Em casos graves, é necessária a hidratação intravenosa e, por vezes, antibióticos.

6. Que medidas de prevenção são cruciais em Angola? As medidas cruciais são: garantir o consumo de água potável tratada (fervida ou clorada), lavar as mãos com água e sabão após usar a casa de banho e antes de manipular alimentos, e garantir o destino seguro dos dejetos humanos (saneamento básico).

7. Há vacina para a cólera? Sim. Existem vacinas orais pré-qualificadas pela OMS, que são usadas em campanhas direcionadas a populações em áreas de alto risco, como parte de uma resposta integrada que inclui melhorias em água e saneamento.

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