Por Redação
Em diversas regiões do continente africano, a integração de novas tecnologias nas salas de aula está a passar de um conceito futurista para uma realidade tangível, alterando profundamente a forma como os jovens aprendem e se preparam para o mercado de trabalho global. Iniciativas recentes no Gana, que reflectem uma tendência observada também em Angola e noutros países da região, demonstram como a Inteligência Artificial na Educação está a ser utilizada para combater a exclusão digital, ao mesmo tempo que levanta debates urgentes sobre soberania tecnológica e a necessidade de políticas públicas robustas.
Inclusão Digital e Novas Competências
No bairro de Chorkor, em Acra, um laboratório digital modesto tornou-se o centro de uma transformação silenciosa, mas poderosa. Jovens que anteriormente tinham pouco ou nenhum contacto com computadores estão agora a desenvolver literacia digital através de ferramentas inteligentes. O projecto, liderado pela organização Basics International e gerido pela empreendedora social Patricia Wilkins, foca-se em capacitar jovens de comunidades desfavorecidas.
“Lançámos o programa há apenas alguns meses e já tivemos uma primeira turma de estudantes. Estamos agora na segunda e temos quase 100 alunos, distribuídos por três turmas”, afirmou Wilkins em entrevista à DW. Segundo a responsável, a tecnologia representa o futuro do emprego e a porta de entrada para o trabalho remoto, uma realidade cada vez mais presente na economia global.
Para os estudantes, o impacto é imediato. Emmanuel Dwamena Tenkorang, aluno de Informática, destaca a inspiração que o curso lhe trouxe: “Aprendi muito. Adoro tecnologia e tudo o que a envolve, mas, ao frequentar estas aulas, consegui adquirir conhecimentos práticos”.
O Impulso Continental e a Estratégia Educativa
O avanço da Inteligência Artificial na Educação não se resume a iniciativas isoladas. Recentemente, Acra acolheu mais de 1.500 especialistas em educação e tecnologia para debater a integração da IA nos sistemas de ensino africanos. O objectivo central é utilizar estas ferramentas para impulsionar a inovação e o desenvolvimento sustentável.

Gideon Owusu Agyemang, do Centro de Excelência em TIC Gana-Índia Kofi Annan, explica que o foco está na resolução de problemas reais do ambiente escolar. “Agora temos máquinas de tutoria inteligente a apoiar os alunos na sua aprendizagem”, sublinha o especialista, prevendo que o uso da IA se tornará dominante em todos os contextos educativos do continente.
Este movimento alinha-se com esforços de instituições internacionais, como a UNESCO, que defendem o uso ético da IA para alcançar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável.
Soberania Digital: O Risco de um “Colonialismo Digital”
Apesar do entusiasmo, a implementação da Inteligência Artificial na Educação gera cautela entre veteranos do sector e governantes. Existe uma preocupação crescente de que a importação acrítica de tecnologias estrangeiras possa resultar numa nova forma de dependência.
Ekwow Spio-Garbrah, antigo ministro da Educação do Gana e fundador do Fundo Fiduciário para a Educação, alerta para a necessidade de despertar as instituições africanas. “Muitas instituições de ensino estão adormecidas. Estamos num admirável mundo novo em que aqueles que constroem as máquinas se preparam para controlar o mundo”, advertiu Spio-Garbrah, enfatizando que África deve não apenas consumir, mas também controlar e possuir as suas próprias tecnologias.
Na mesma linha, Sam George, ministro da Comunicação do Gana, defende que as soluções devem reflectir valores locais. “As soluções de IA não devem ser desenvolvidas para África por não africanos, sob pena de voltarmos a um colonialismo digital”, afirmou o governante, insistindo na equidade e no respeito pela soberania digital das nações africanas.
Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável
Para que a Inteligência Artificial na Educação seja efectiva e segura, especialistas apontam a regulação como o próximo passo crítico. Deborah Asmah, CEO da Npontu Technologies, argumenta que é necessária uma “política deliberada e específica” para passar da discussão à concretização prática nas escolas e universidades.
Além do aspecto regulatório, a IA é vista como um catalisador económico. Phoebe Koundouri, professora de Economia na Universidade de Atenas, destaca que a tecnologia permite decisões baseadas em dados e a optimização de recursos, desde que guiada por princípios éticos e acesso equitativo.
Amir Dossal, ex-secretário-geral adjunto das Nações Unidas, reforça o potencial disruptivo do continente. Segundo Dossal, África não é apenas uma espectadora, mas tem o poder de “dar um salto tecnológico sobre modelos ultrapassados” e reescrever as regras da IA global, servindo de modelo para outras regiões em desenvolvimento.
Conclusão
A introdução da Inteligência Artificial na Educação em África apresenta-se como uma faca de dois gumes: oferece uma oportunidade sem precedentes para acelerar o desenvolvimento e a literacia digital, mas exige uma vigilância constante sobre a origem e o controlo dessas tecnologias. O consenso entre especialistas e governantes é que, para garantir um futuro próspero, os países africanos devem investir na criação de políticas próprias e na formação de talento local, evitando a dependência externa e garantindo que a revolução digital reflicta os valores e as necessidades do continente.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. O que é a Inteligência Artificial na Educação no contexto africano? Trata-se da utilização de ferramentas tecnológicas e algoritmos inteligentes para personalizar a aprendizagem, melhorar a gestão escolar e facilitar o acesso ao conhecimento em comunidades africanas, muitas vezes colmatando a falta de recursos tradicionais.
2. Quais são os principais benefícios da IA para os estudantes africanos? Os benefícios incluem o acesso a tutoria personalizada, desenvolvimento de competências digitais para o mercado de trabalho global (como o trabalho remoto) e a democratização do acesso a conteúdos educativos de alta qualidade.
3. O que significa o termo “colonialismo digital” mencionado na notícia? Refere-se ao risco de os países africanos se tornarem dependentes de tecnologias e dados controlados por empresas estrangeiras, perdendo a soberania sobre os seus próprios sistemas educativos e culturais.
4. Como é que a IA pode ajudar no desenvolvimento sustentável? A IA permite optimizar recursos, reduzir desperdícios e fornecer dados precisos para a tomada de decisões estratégicas, acelerando o progresso rumo aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
5. Existe o risco de a IA substituir os professores em África? Não. O objectivo da Inteligência Artificial na Educação é funcionar como uma ferramenta de apoio, melhorando as capacidades dos professores e não a sua substituição, permitindo-lhes focar mais na pedagogia e menos em tarefas administrativas.
6. Qual é o papel das políticas públicas nesta transformação? As políticas públicas são essenciais para regular o uso ético da IA, garantir a privacidade dos dados dos alunos e assegurar que a tecnologia seja inclusiva e acessível a todas as camadas da população.
7. Angola também está a seguir esta tendência? Sim, a tendência é continental. Assim como o Gana, Angola tem vindo a discutir a modernização do ensino e a inclusão digital como pilares para a diversificação da economia e capacitação da juventude.







