Presidente da Guiné-Bissau confirma detenção militar em meio a impasse eleitoral

Bissau – A instabilidade política voltou a marcar a actualidade na Guiné-Bissau. O Presidente da República, Umaro Sissoco Embaló, afirmou ter sido detido por militares no seu gabinete, no Palácio Presidencial, na sequência de uma alegada tentativa de golpe de Estado. A confirmação foi dada pelo próprio Chefe de Estado à revista Jeune Afrique, num momento em que o país aguarda, sob forte tensão, os resultados oficiais das eleições gerais realizadas no último domingo.

Detenção e Movimentações no Palácio

Segundo as informações avançadas pela fonte, a detenção ocorreu ontem, poucas horas antes da previsão para o anúncio dos resultados eleitorais. Os militares envolvidos declararam ter assumido o “controlo total” da Guiné-Bissau.

Para além do Presidente da República, foram igualmente detidas altas patentes e figuras do governo. Entre os detidos encontram-se o Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, General Biague Na Ntan, o Vice-Chefe do Estado-Maior, General Mamadou Touré, e o Ministro do Interior, Botché Candé.

Embaló relatou à imprensa internacional que, apesar da gravidade da situação, não sofreu violência física. O Presidente atribuiu a orquestração do movimento ao Chefe do Estado-Maior do Exército. O incidente foi precedido por relatos de tiroteios no centro de Bissau, nas imediações do Palácio e da Comissão Nacional de Eleições (CNE).

Troca de Acusações e Cenário Pós-Eleitoral

A crise instala-se num cenário de incerteza eleitoral. Tanto Umaro Sissoco Embaló quanto o candidato da oposição, Fernando Dias, reivindicam a vitória na primeira volta. O actual Presidente alega ter conquistado 65% dos votos, baseando-se numa contagem própria.

No entanto, a narrativa de golpe é contestada pela oposição e por membros da sociedade civil, que classificam a movimentação como uma “encenação”. Segundo estas fontes, tratar-se-ia de uma manobra do Executivo para suspender o processo de contagem de votos e impedir a divulgação de resultados desfavoráveis.

Antonio Yaya Seidy, porta-voz da Presidência, afirmou à agência Reuters que a Comissão Eleitoral foi alvo de um ataque por homens armados não identificados, com o objectivo de bloquear o anúncio oficial dos resultados.

Oposição Denuncia “Invasão Brutal”

A tensão alastrou-se às sedes partidárias. A campanha de Fernando Dias denunciou a detenção do seu candidato e do líder da coligação PAI Terra Ranka, Domingos Simões Pereira.

Em comunicado divulgado nas redes sociais, a coligação condenou o que classificou como “detenções arbitrárias”, relatando uma “invasão brutal” à sede da Directoria Nacional da campanha.

Comunidade Internacional em Alerta

A situação na Guiné-Bissau, país membro da CPLP e nação irmã de Angola, gerou reacções imediatas da comunidade internacional.

  • Nações Unidas: O porta-voz de António Guterres, Stéphane Dujarric, declarou que o Secretário-Geral acompanha a situação com “profunda preocupação”, apelando à contenção de todas as partes e ao respeito estrito pelo Estado de Direito.
  • CPLP: Antes da escalada de tensão, a missão de observação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), liderada por Luís Diogo de Carvalho, havia elogiado o civismo do povo guineense. No seu relatório preliminar, a missão destacou que o processo decorreu de forma “ordeira e organizada”, com forte participação de jovens e mulheres, e exortou ao respeito pela vontade expressa nas urnas.

Contexto Histórico

A Guiné-Bissau possui um histórico marcado por instabilidade política e intervenções militares desde a sua independência. Este novo episódio coloca em risco os esforços de consolidação democrática na África Ocidental, uma região que tem observado um ressurgimento de golpes militares nos últimos anos. A estabilidade em Bissau é vista como crucial para a segurança regional e para as relações diplomáticas no espaço lusófono.

Conclusão

Neste momento, a Guiné-Bissau permanece num impasse. Enquanto as forças militares reivindicam o controlo, a população e os observadores internacionais aguardam clarificações sobre a validade do processo eleitoral e a segurança dos líderes detidos. Os próximos dias serão decisivos para determinar se o país conseguirá retomar a ordem constitucional ou se mergulhará numa nova crise institucional prolongada.

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