Dina Santos reflete sobre trajectória e o futuro da Música Angolana após 50 anos de carreira

Por Redacção

A veterana cantora Dina Santos, uma das vozes femininas mais emblemáticas da Música Angolana, revisitou a sua carreira de mais de cinco décadas e o impacto da Independência Nacional na cultura do país. Em declarações recentes, a artista, que iniciou o seu percurso na década de 1960, destacou a importância de preservar o legado artístico e manifestou total abertura para colaborar com a nova geração de músicos, visando a valorização e o aprimoramento das composições nacionais.

O Início de uma lenda nos palcos de Luanda

Dina Santos começou a sua caminhada artística muito jovem, com apenas 16 anos, num período de grande efervescência cultural em Luanda. A sua estreia ocorreu no célebre programa “Chá das Seis”, realizado na antiga Rádio Colono — actuais instalações da Luanda Antena Comercial (LAC).

A artista foi projectada por figuras incontornáveis da Música Angolana, como Tonito Fortunato. A sua trajectória inclui passagens por alguns dos conjuntos mais influentes da história do país:

  • Grupo Eitex: Onde deu os primeiros passos.
  • Os Kiezos: Integrou o grupo numa fase em que era casada com Walter Costa.
  • Jovens do Prenda e África Show: Conjuntos fundamentais para a sonoridade do Semba e da Rumba.
  • Os Corvos: Onde consolidou a sua maturidade artística.

Dina segue a linhagem de grandes matriarcas da canção, como Belita Palma e Lourdes Van-Dúnem, mantendo viva a chama da tradição.

A era de ouro dos bairros e o “Cutanoca”

Durante a entrevista, a cantora recordou com nostalgia a dinâmica cultural dos musseques e bairros de Luanda antes da independência. Segundo Dina Santos, a figura de Luís Montes foi central na promoção da cultura periférica através do “Cutanoca” (termo que significa “brincadeira”). Estes eventos, realizados aos sábados, eram o palco principal para a Música Angolana, onde os agrupamentos competiam e animavam a população.

“Antigamente havia muitos centros culturais, muitos mesmo. Hoje é que não temos nada, talvez pela situação que atravessamos”, lamentou a artista, comparando a infraestrutura cultural do passado com a escassez actual.

Para saber mais sobre a história dos conjuntos musicais em Angola, consulte arquivos culturais como o portal da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC).

Memórias da “Dipanda”: Entre a euforia e a realidade

O país prepara-se para celebrar 50 anos de Independência, e Dina Santos partilhou as suas memórias vivas do 11 de Novembro de 1975. O período que antecedeu a proclamação foi marcado por instabilidade e incerteza, descrito pela cantora como uma fase de “muita confusão e perturbações”.

No entanto, o momento da proclamação trouxe uma explosão de sentimentos. “Houve tiros de alegria, choros também de alegria. As pessoas gritavam ‘estamos independentes!’ e os vizinhos abraçavam-se sem medo”, relatou.

O impacto pós-independência

A esperança de uma transformação imediata colidiu com a realidade do conflito armado que se seguiu. A artista reconhece que a Música Angolana e a sociedade, em geral, sofreram com a guerra, mas mantém uma postura de resiliência.

  1. Expectativa: A crença de que tudo mudaria para melhor instantaneamente.
  2. Realidade: Anos de conflito e necessidade de adaptação.
  3. Superação: O entendimento de que a reconstrução do país e da identidade cultural é um processo contínuo.

Dados históricos indicam que a produção musical em Angola sofreu um declínio técnico durante os anos de guerra, mas serviu como principal veículo de intervenção social e resistência política.

O Encontro de gerações na Música Angolana

Olhando para o futuro, Dina Santos não se isola no passado. Pelo contrário, a artista estende a mão aos jovens talentos. Ela afirmou estar “de braços abertos” para trabalhar com a nova geração, oferecendo a sua experiência para melhorar a qualidade lírica e melódica das composições actuais.

Esta postura é vital num mercado onde a Música Angolana contemporânea, muitas vezes focada em ritmos digitais, carece por vezes da profundidade de composição que marcou a geração de 60 e 70. A mentoria de veteranos como Dina Santos pode ser a chave para a sustentabilidade da qualidade artística nacional.

Conclusão

A trajectória de Dina Santos reflete a própria história de Angola: marcada por momentos de grande vibração cultural, períodos de conflito e uma constante busca por renovação. Ao completar meio século de carreira e de país independente, a mensagem da cantora é clara: é necessário respeitar a história para construir um futuro sólido. Especialistas do sector cultural preveem que a fusão entre os ritmos clássicos e a modernidade, incentivada por ícones como Dina, será determinante para a projecção internacional da cultura angolana nos próximos anos.

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