Um relatório divulgado na terça-feira pelo Programa Alimentar Mundial (PAM) alerta que a escalada de ataques militantes no norte da Nigéria está a conduzir a fome a níveis sem precedentes na região. A agência das Nações Unidas projeta que, até 2026, cerca de 35 milhões de pessoas enfrentarão fome severa no país, o número mais elevado no continente africano e o maior registo desde que a organização começou a recolher dados na Nigéria. Esta deterioração drástica da segurança alimentar resulta de uma combinação crítica entre violência armada e cortes substanciais na ajuda internacional.

Estado de Borno em Situação Catastrófica
O epicentro desta crise humanitária localiza-se no estado de Borno, no nordeste do país. Segundo as previsões do PAM, pelo menos 15.000 pessoas nesta região deverão enfrentar fome catastrófica no próximo ano, incluindo condições semelhantes às da fome extrema (famine).
O estado de Borno será classificado na “Fase 5”, o nível mais elevado de segurança alimentar na escala da agência. Este cenário coloca a região num patamar de gravidade comparável ao que tem sido observado recentemente em zonas de conflito intenso, como a Faixa de Gaza e o Sudão, exigindo intervenção humanitária imediata para evitar a perda massiva de vidas.

Violência Armada Paralisa a Agricultura
O relatório destaca que o norte da Nigéria vive a sua crise de fome mais severa da última década, sendo as comunidades agrícolas rurais as mais afetadas. Ataques generalizados por diversos grupos armados impediram os agricultores de cultivarem as suas terras, quebrando a cadeia de produção local.
Escalada de Sequestros e Novos Grupos
A instabilidade intensificou-se com a entrada de novos atores no conflito e o aumento dos sequestros:
- Novos Atores: Em outubro, o grupo Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, afiliado da al-Qaeda, reivindicou o seu primeiro ataque na Nigéria, juntando-se a um cenário já complexo de grupos armados.
- Sequestros em Massa: A 21 de novembro, mais de 300 estudantes e 12 professores foram raptados de uma escola no estado do Níger. Este incidente ocorreu apenas quatro dias após o sequestro de 25 estudantes no estado vizinho de Kebbi, a 170 quilómetros de distância.
Estes eventos não só desestabilizam a segurança social, como paralisam as atividades económicas essenciais para a segurança alimentar das populações locais.
Impacto dos Cortes de Financiamento Internacional
Além da violência interna, a crise é agravada por decisões de política externa. A Nigéria foi duramente atingida por uma redução massiva na assistência alimentar da ONU, na sequência da decisão do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de reduzir drasticamente o orçamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID).
Esta medida resultou na cessação do financiamento da USAID ao PAM. Como consequência direta, a agência da ONU anunciou que esgotará os seus recursos para assistência alimentar e nutricional de emergência já em dezembro deste ano.
Uma Crise Regional
A Nigéria não é um caso isolado, mas é um dos países onde o impacto é mais profundo. Em julho, a agência já havia suspendido a assistência alimentar em várias partes da África Ocidental e Central devido à falta de verbas.
“Sem financiamento confirmado, milhões ficarão sem apoio em 2026, alimentando a instabilidade e aprofundando uma crise que o mundo não se pode dar ao luxo de ignorar”, declarou o PAM em comunicado.
Conclusão e Perspetivas
O cenário traçado para a Nigéria aponta para uma emergência humanitária de longa duração. Se não houver uma reversão imediata nos fluxos de financiamento internacional e uma estratégia eficaz para conter a violência no norte do país, as projeções indicam um colapso humanitário. Analistas alertam que a falta de segurança alimentar poderá funcionar como um catalisador para mais instabilidade, criando um ciclo vicioso de fome e conflito que poderá desestabilizar ainda mais a região da África Ocidental nos próximos anos.
Fonte: Baseado no relatório do Programa Alimentar Mundial (PAM/WFP)







