Bispo denuncia inação do Governo após rapto de 250 estudantes na Nigéria

Lagos – Uma grave crise diplomática e humanitária está em curso na África Ocidental após o desaparecimento de mais de 250 crianças, retiradas à força de um internato católico no estado do Níger. O incidente, ocorrido na passada sexta-feira, gerou uma troca de acusações entre líderes religiosos e as forças de segurança, enquanto a comunidade internacional, incluindo os Estados Unidos, pressiona por respostas imediatas perante a escalada da violência na região.

Impasse entre Igreja e Estado sobre operações de resgate

As operações de busca pelas crianças levadas da escola St. Mary’s, localizada na aldeia de Papiri, tornaram-se o centro de uma controvérsia pública. De acordo com informações avançadas pela BBC, o Bispo Bulus Dauwa Yohanna, principal clérigo católico da região e presidente da secção local da Associação Cristã da Nigéria (CAN), afirmou categoricamente que o Governo Federal não está a realizar “nenhum esforço significativo” para localizar as vítimas.

Segundo o líder religioso, a única medida oficial concreta até ao momento limitou-se à compilação dos nomes dos desaparecidos. Dados da CAN indicam que, inicialmente, 303 alunos e 12 funcionários foram levados, sendo que 50 crianças conseguiram escapar e retornar às suas famílias.

Em contrapartida, as forças policiais do estado rejeitam as alegações de negligência. O chefe da polícia local declarou que as operações de busca estão a ser dificultadas pela própria instituição de ensino, acusando a administração escolar de não cooperar com as autoridades. Este cenário de desconfiança mútua agrava a angústia dos familiares, num momento em que os raptos na Nigéria se tornaram uma indústria criminosa lucrativa para gangues e grupos insurgentes.

Pressão internacional e ameaça de intervenção militar

A instabilidade na nação mais populosa de África atraiu a atenção da Casa Branca. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, emitiu um ultimato severo, ameaçando uma intervenção militar caso o governo nigeriano não consiga travar o que classificou como “o assassinato de cristãos”.

Num esforço para conter a crise diplomática, Pete Hegseth, identificado como Secretário da Guerra dos EUA, manteve conversações com o conselheiro de Segurança Nacional da Nigéria, Mallam Nuhu Ribadu. O objectivo foi debater estratégias para combater tanto a violência religiosa como a expansão de grupos terroristas na África Ocidental.

No entanto, o governo nigeriano, através do porta-voz presidencial Bayo Onanuga, refutou a tese de perseguição religiosa patrocinada pelo Estado. As autoridades de Abuja sustentam que a crise de segurança é motivada por criminalidade comum, extremismo e disputas territoriais, afectando cidadãos de todas as crenças.

Contexto de segurança deteriorado

A situação é agravada pela confirmação recente da morte de um general sénior do exército nigeriano numa emboscada jihadista no estado de Borno. Além disso, o grupo Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin, afiliado da Al-Qaeda, reivindicou o seu primeiro ataque no país em Outubro, sinalizando a diversificação dos actores armados na região.

Diante do aumento dos raptos na Nigéria, as autoridades do estado de Lagos anunciaram o reforço da segurança em escolas e edifícios estratégicos, numa tentativa de prevenir a alastramento dos ataques para o centro económico do país.

Insegurança impulsiona fome catastrófica

Para além da violência directa, o conflito está a gerar uma crise alimentar sem precedentes. Um relatório recente do Programa Alimentar Mundial (PAM) alerta que o aumento dos ataques no norte do país está a impedir os agricultores de cultivarem as suas terras, o que poderá resultar nos piores índices de insegurança alimentar de África.

Os dados projectados pela ONU são alarmantes:

  • 35 milhões de pessoas poderão enfrentar fome severa até 2026.
  • O estado de Borno deverá atingir a “Fase 5” de insegurança alimentar (fome catastrófica), comparável à situação em zonas de guerra como Gaza e Sudão.
  • Cerca de 15 mil pessoas estão em risco imediato de inanição extrema.

“O norte da Nigéria está a enfrentar a crise de fome mais grave numa década”, sublinhou o comunicado do PAM. A situação é exacerbada pelo corte no financiamento da assistência internacional, após a decisão da administração norte-americana de desmantelar a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), deixando o PAM sem recursos previstos para assistência de emergência a partir de Dezembro.

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